Você estava em casa dormindo, mas não profundamente pois havia uma tensão no ar... Você acorda e seu irmãozinho de dez anos está literalmente acabando com seu cabelo cultivado por tantos anos a fio. Você foi todo orgulhoso fazer a matrícula pela manhã e agora está na frente do espelho do banheiro, observando sua careca bronzeada e sua cara pintada, lembrando do dia maravilhoso, mendigando trocados em algum farol da cidade.
Finalmente você entrou na Poli.
Sua namorada/o, sua avó, sua mãe, seu pai, seus irmãos, enfim, todos estão orgulhosos; principalmente você mesmo, mas cuidado, isto pode se virar contra você em um piscar de olhos.
Se você está se identificando com o texto acima, você não é nada além do normal e provavelmente irá aprender algumas coisas sobre a Poli, certamente não da maneira correta. Aqui vão algumas dicas de como sobreviver a este mundo selvagem (por enquanto) em que acaba de entrar. Entrar em uma universidade como a USP é tão bom quanto é perigoso. A maioria das pessoas aprovadas sempre teve uma vida escolar exemplar, com poucas ou nenhuma reprovação. O ego costuma estar inchado, mas cuidado. Na Poli, notas baixas e reprovações são frequentes e o aluno demora algum tempo para encontrar seu caminho. O ideal é ter método e disciplina de estudo. Não é necessário ter um horário militar, pois o melhor método de estudo é aquele que o próprio aluno constrói e funciona. Grupos de estudo podem ser uma boa ideia já que cada pessoa costuma ter uma dúvida diferente sobre assuntos diferentes.
Normalmente o colegial é um mundo pessoal de classes pequenas, onde as pessoas se conhecem e são amigas (ou não). Na faculdade as coisas mudam. Na Poli, as classes são grandes e em alguns cursos o clima não é de muita cooperação. Aqui, o essencial é que você não seja tímido. As festas, cervejadas, gincanas e competições-viagem (InterUSP, TUSCA, etc.) servem como uma poderosa arma de integração entre os alunos. Aproveite-as. Já nas aulas, extremamente impessoais, quase nenhum professor se preocupa se você irá passar na matéria ou não. Um bom remédio pode ser conversar com o professor, afinal nem todos mordem, e ainda podem responder suas dúvidas. Além disso, podem surgir dúvidas do tipo: “é melhor estudar por listas de exercícios ou provas antigas?”, “o trabalho tem bastante peso na média?”. Para isso, fale com seus veteranos, pois para cada matéria existem dicas, métodos de estudo e pesos diferentes. Então, fique atento desde os pequenos macetes até qual professor escolher em cada disciplina.
“Não passei em Algelin nem em SD, estou com muitos créditos na minha grade. Tenho muitas DP’s, mas ainda quero tentar DD ou AE. Além da Rec de Numérico, vem o nabo de Mecflu no mesmo dia de R1”. Este é mais um choque da Poli: o vocabulário. Como as matérias têm nomes muito extensos, costumamos abreviá-los por uma simples questão de comodidade, surgindo assim nomes como Sub (prova substitutiva), P1, P2, P3... (provas do curso), Mecflu (Mecânica dos Fluidos). Outro procedimento é utilizar a própria sigla da matéria, como MAC 2166 (Computação, geralmente chamado de MAC) e outras. Com o tempo, você se acostumará e irá usá-los com relativa comodidade. Uma boa dica é olhar com muita atenção o BIXONÁRIO, nesta mesma edição, que irá familiarizá-lo com outras palavras que o politécnico costuma utilizar.
Um dos maiores choques do politécnico é a própria USP. Os cursinhos e as escolas dão uma ideia paradisíaca da universidade: “a maior universidade da América Latina, elite pensante, os melhores professores...”. Não é bem assim. Embora existam excelentes professores, alunos estudiosos e laboratórios equipados, o que você mais vai encontrar é burocracia, professores com pouca ou nenhuma didática, livros que mais parecem escritos em gregoarcaico e uma grande dificuldade para usufruir dos recursos que a universidade oferece. Não se desespere, você terá de buscar livros bons, a ajuda de colegas, falar com professores, e batalhar pelo seu espaço dentro da escola. Assim, em vez de lamentar, tente contribuir para a melhoria da sua faculdade. Isso também vai prepará-lo para sua vida profissional, onde nada será dado de “mão beijada”, e talvez seja exatamente por essa postura que os alunos da Poli sejam tão diferenciados no mercado de trabalho.
Enfim, nas próximas páginas você terá um guia que o ajudará a sobreviver nesse início de vida Politécnica e USPiana, com diversas dicas para que você não se sinta tão perdido nesse novo período que se inicia.
Aproveite!